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Transtornos de personalidade: o que são, como é o diagnóstico e o que ajuda no tratamento

22 de jul. de 2024
7 min de leitura

Atualizado: 20 de ago.

Talvez você tenha ouvido esse nome em uma consulta e saído sem entender direito o que ele significa. Ou talvez esteja aqui por causa de outra pessoa — alguém da família, um parceiro — e não saiba mais se o que acontece entre vocês é feitio, é briga ou é adoecimento.

Nos dois casos, a informação que ajuda é a mesma, e ela não é a lista de tipos: é entender como esse diagnóstico é feito, por que ele demora, e o que muda quando existe um tratamento em curso.

Um transtorno de personalidade não é um traço de temperamento nem um defeito de caráter. É um padrão persistente de funcionamento — na forma de se ver, de lidar com a própria emoção e de se relacionar — que se repete em contextos diferentes ao longo de anos e produz sofrimento real ou prejuízo concreto na vida.

O que é um transtorno de personalidade — e o que não é

Todo mundo tem um jeito. Uma pessoa mais reservada, outra mais explosiva, outra que sofre demais com crítica. Isso é personalidade, e personalidade não é doença.

O que diferencia um transtorno é a combinação de quatro coisas: o padrão é estável ao longo do tempo, aparece em várias áreas da vida (não só no trabalho, não só em um relacionamento), começou a se desenhar no fim da adolescência ou no início da vida adulta, e — este é o ponto decisivo — causa sofrimento ou atrapalha a vida de forma consistente.

Os manuais descrevem o quadro de formas diferentes: o DSM-5-TR mantém tipos separados, enquanto a CID-11 organiza o diagnóstico por grau de gravidade e por traços predominantes, mantendo o padrão borderline como qualificador. O transtorno de personalidade borderline é o mais comentado, e também o mais cercado de estigma; se é ele que te trouxe até aqui, vale ler [o que a ciência realmente diz sobre o transtorno de personalidade borderline](/transtorno-de-personalidade-borderline-mitos-e-o-que-a-ciência-realmente-diz) antes de qualquer conclusão.

Na prática de consultório, o nome do tipo costuma importar menos do que a pergunta seguinte: o que exatamente isso está custando na sua vida hoje.

Como o diagnóstico é feito (e por que ele não sai na primeira consulta)

Esta é a parte que mais frustra quem chega com pressa de uma resposta.

Transtorno de personalidade é um diagnóstico longitudinal. Isso quer dizer que ele não se sustenta em um recorte — em como você está nesta semana, ou em como reagiu naquela discussão. Ele depende de reconhecer um padrão que atravessa anos.

A avaliação psiquiátrica costuma envolver mais de um encontro e cobre a história de vida, o funcionamento em diferentes fases, os relacionamentos, o trabalho, o uso de substâncias e o histórico de saúde. Com autorização, a conversa com alguém próximo pode entrar como uma fonte a mais.

Boa parte do trabalho é de exclusão. Depressão, transtorno bipolar, TDAH, transtornos de ansiedade, efeito de substâncias e situações de violência ou trauma em curso podem produzir instabilidade emocional e conflito nas relações sem que exista um transtorno de personalidade por trás. Fechar o diagnóstico antes de descartar essas possibilidades é como nomear a fumaça e não procurar o fogo.

Em adolescentes, a cautela é ainda maior: a personalidade ainda está em formação, e um rótulo aplicado cedo demais tende a colar. Cautela, porém, não é o mesmo que não avaliar: adiar a avaliação de um adolescente que já está sofrendo e em risco também cobra preço. O que se faz é avaliar com mais tempo e menos pressa de nomear.

"O que mais atrapalha nesse diagnóstico é a pressa", observa a psiquiatra Rochelle Marquetto (CRM/RS 39448 · RQE 43138), responsável técnica da Clínica Pontual. "É comum a pessoa chegar já com um nome que leu na internet ou que alguém usou numa briga. Meu trabalho na avaliação não é confirmar esse nome — é entender quanto tempo esse padrão existe e o que ele está custando."

O que ajuda no tratamento

A psicoterapia é o eixo. Existem abordagens estruturadas desenvolvidas para o transtorno de personalidade borderline — a terapia comportamental dialética (DBT), voltada sobretudo à regulação emocional e à tolerância ao sofrimento, e a terapia baseada em mentalização (MBT), centrada na capacidade de entender os próprios estados mentais e os dos outros. Não é a mesma coisa que "fazer terapia" de forma genérica: são métodos estruturados, com foco e duração definidos, e hoje também estudados em outros quadros. Para os demais tipos, a abordagem é definida caso a caso na avaliação: não existe um método único indicado para todo o grupo. Nem todo serviço oferece esses métodos estruturados — se a indicação for DBT ou MBT, confirme com a equipe qual formato está disponível.

Não existe medicamento que trate o transtorno de personalidade em si. Quando o psiquiatra prescreve, o alvo costuma ser outro: uma depressão associada, um quadro de ansiedade, insônia, ou sintomas específicos que estejam impedindo a psicoterapia de funcionar. Por isso o acompanhamento psiquiátrico e o psicológico costumam andar juntos.

Se você já usa alguma medicação, nada disso é motivo para interrompê-la por conta própria. A parada abrupta de psicofármaco pode provocar sintomas de retirada e piora do quadro. Qualquer mudança de esquema se conversa com o médico que prescreveu.

Vale ser honesto sobre o tempo. Esse é um tratamento longo, medido em meses e anos, não em semanas. Ele pode reduzir sofrimento, diminuir crises e devolver funcionamento — e nada disso vem com prazo garantido nem com linha de chegada marcada. Não existe, na literatura disponível, tratamento que produza remissão rápida desse quadro.

Se você está tentando entender alguém da sua família

Você provavelmente já ouviu que precisa ter paciência. Isso não é orientação, é cobrança.

Três coisas que costumam ajudar mais:

Separe a pessoa do padrão. Não existe "ele é borderline". Existe uma pessoa com um transtorno, que tem história, gostos, capacidade e responsabilidade — e que também tem um padrão que sofre e faz sofrer.

Você não é o terapeuta. Ler sobre o assunto ajuda a entender; não te transforma em quem conduz o tratamento. Tentar aplicar técnica em casa costuma desgastar o vínculo sem tratar nada.

Limite não é abandono. Dizer até onde você vai — de horário, de disponibilidade, do que aceita ou não aceita — é o que permite que você continue presente por muito tempo. Cuidar de alguém até se anular não é sustentável, e o desfecho disso costuma ser o afastamento.

E um ponto que não é opcional:

Fala em morrer é para levar a sério. Se a pessoa falar em morrer ou em se machucar, não trate como manipulação ou chantagem — essa leitura é comum na família, e é perigosa. Não deixe a pessoa sozinha, procure atendimento junto com ela e restrinja o acesso aos meios disponíveis em casa. Em risco imediato: 188 (CVV, gratuito, 24 horas) ou 192 (SAMU), e leve a um pronto-socorro ou ao CAPS de referência.

Se você está exausto, isso também é motivo legítimo para procurar atendimento por conta própria. Não é egoísmo. Quem chega até aqui geralmente já está adiando isso há tempo demais — vale saber [o que perguntam e o que levar na primeira consulta com o psiquiatra](/como-preparar-a-primeira-consulta-com-o-psiquiatra-o-que-falar-e-o-que-levar) antes de marcar.

Quando procurar ajuda profissional

Isto não é uma lista diagnóstica — é um conjunto de sinais de que vale conversar com um profissional. Vale marcar uma avaliação quando o padrão já está cobrando preço: relações que se rompem sempre do mesmo jeito, empregos que não se sustentam, oscilação emocional que domina o dia, sensação persistente de vazio, ou dificuldade recorrente de manter qualquer vínculo estável.

Reconhecer-se em um ou em vários desses pontos não significa ter um transtorno de personalidade. Significa que existe algo custando caro o suficiente para merecer avaliação.

Transtornos de personalidade — o transtorno de personalidade borderline em particular — têm associação com risco de suicídio e de autolesão. Isso não é motivo para desespero, e é motivo para não adiar a avaliação. Se o risco é agora, o caminho não é agendar: é buscar atendimento imediato.

Se existem pensamentos de morte ou de se machucar, isso é urgência e não deve esperar agenda. Ligue 188 — o CVV atende de graça, 24 horas por dia, todos os dias — ou 192 (SAMU), e procure imediatamente um pronto-socorro ou o CAPS de referência do seu bairro. Se quem está em risco é alguém próximo, não deixe a pessoa sozinha e procure atendimento junto com ela. O WhatsApp e o telefone da Clínica Pontual não são canais de emergência e não funcionam 24 horas: o atendimento é ambulatorial, com hora marcada, de segunda a sexta, e a clínica não faz pronto-atendimento nem internação.

Perguntas frequentes

Transtorno de personalidade tem cura? A pergunta mais útil é outra: dá para melhorar? Com tratamento continuado, sintomas podem reduzir e o funcionamento na vida pode melhorar. É um processo longo, e ninguém pode garantir prazo ou resultado. Fugir da palavra "cura" aqui é honestidade clínica, não pessimismo.

Quantas consultas até fechar o diagnóstico? Não há número fixo. Como o diagnóstico depende de reconhecer um padrão ao longo dos anos, costuma exigir mais de um encontro e uma história de vida bem levantada. Como o diagnóstico depende de reconhecer um padrão que atravessa anos, ele costuma exigir mais de um encontro e uma história de vida bem levantada — dificilmente se sustenta a partir de uma única conversa breve. Se você tem dúvidas sobre a avaliação que recebeu, o caminho é conversar com o médico que a conduziu.

Preciso de psiquiatra ou de psicólogo? Quem define isso é a avaliação, não uma regra geral. Nos transtornos de personalidade a psicoterapia é o eixo do tratamento, e o acompanhamento psiquiátrico entra para o diagnóstico, para a investigação de condições associadas e para a parte médica quando ela é necessária. A Pontual tem psiquiatras e psicólogos no mesmo corpo clínico.

Posso me consultar por convênio? A Pontual atende IPE, GEAP, CABERGS, Humana, CanoasPrev e CarePlus. No particular, a consulta com psiquiatra é R$ 260 e com psicólogo, R$ 90. Se você tem plano e não sabe o que ele cobre, veja [como funciona a cobertura de psiquiatria pelo plano de saúde](/plano-de-saúde-cobre-psiquiatria-o-que-você-precisa-saber-antes-de-consultar).

Dá para fazer por teleconsulta? Sim, a teleconsulta está disponível. Situações de urgência, risco ou instabilidade clínica não são conduzidas por teleconsulta. Antes da teleconsulta, você recebe as informações sobre como o atendimento funciona e registra seu consentimento — é uma exigência da regulamentação e fica no seu prontuário. As duas unidades ficam em Porto Alegre — Centro Histórico (Rua dos Andradas 1781, sala 1004) e Zona Norte (Medplex, Av. Assis Brasil 2827, sala 1202), de segunda a sexta, das 8h às 19h.

Reconhecer sintomas não é receber um diagnóstico

Um texto ajuda a nomear o que você sente, mas o diagnóstico psiquiátrico considera histórico, tempo de evolução e outras condições que produzem sintomas parecidos. Se você se identificou com o que leu, o passo seguinte é uma avaliação com médico.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica presencial ou por teleconsulta.

Clínica Pontual Psiquiatria — inscrita no CRM/RS sob o nº 10877.

Responsável técnica médica: Dra. Rochelle Marquetto — MÉDICA — Psiquiatria — CRM/RS 39448 · RQE 43138.

Responsável técnica pelos serviços de Psicologia: Flávia Teixeira Subtil — PSICÓLOGA CLÍNICA — CRP 07/41029.

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